• Sobre desocupar o coração. Ou não.

    Tenho o coração ocupado. Já faz tempo que não me deixava chegar. Sem saber porquê, nunca o consegui contrariar. Estava ocupado e não me dizia nada. Nunca tive um coração preenchido que batesse tão baixinho. Um bater ténue. Suave. Quase que imperceptível. Foi preciso encontrá-lo. E num reparo. Num suster da respiração. Percebo que durante todo este tempo, não se deixava ocupar por estar já indisponível. Esteve sempre ocupado. No silêncio de quem não se quer deixar conhecer. O silêncio protege-nos. E talvez por isso, está ocupado e não ocupa nenhum lugar. Talvez porque não é correspondido. Ou talvez seja. Mas não se deixa denunciar. Tenho um coração pequenino, preenchido,…

  • Nunca tinham presenciado vista mais bonita

    Atravessavam um caminho difícil, marcado pela exigência. Repararam-se, no entanto, mesmo quando todas as forças se repeliam. Eram de postos distintos, ainda que da mesma profissão. Permitiram-se parar. Olharam-se nos olhos. Tinham vista um para o outro. Nunca tinham presenciado vista mais bonita. O militarismo não se marcava por vistas bonitas. Nesse dia, despidos de medos, plantaram a sua flor. Trocaram corações. Congregaram duas vidas e caminharam, uma última vez, sem amparo. São princípio de um novo existir. Mas também colo. Seguram nas mãos o seu coração fora do peito. O seu amor convertido em corpo. A graça das suas vidas. E seguem felizes.   … Deixa Ser …  

  • Amar, foi sempre mais dor do que amor

    Fui coração aberto por tanto tempo. Soube sempre receber-te. Soube sempre vencer medos. Soube sempre dizer-te que sim. Mesmo quando os pássaros não cantavam. Mesmo quando os rios não corriam. Soube sempre estender os braços e recomeçar. . Deixei-me um dia cair. Não recordo ao certo quando. . As quedas, se lhes dermos esse espaço, podem ser lugares sem fim. E eu caí sem me dar conta do que significaria deixar-me ir. . Hoje, bem cá no fundo, concebo que este lugar para onde fugi me está a negar receber-te. Não me deixo amar. Quando nos entregamos aos medos, oferecemo-lhes relevância. . Não me lembro da última vez que te…

  • Ver-te, não é o mesmo que olhar para ti

    Estou imersa numa imagem tão bonita. Vejo-te. Como se o mundo estivesse todo a olhar para ti. Parámos, só para te olhar. Parámos e não se ouve respirar. Parámos e tens o mundo inteiro a suster o ar por ti. Na vida, nunca vivi momento mais bonito do que este de ter vista para ti. Há um deslumbre que me corre desde que me embati com a linha ténue que desenha o teu existir. Há um silêncio longo entre o momento em que te olho e este em que me reconheces. Porque há muito que nunca tinha parado para olhar para o que nunca vi. E eu nunca tinha parado…

  • Está muito escuro e daqui não te consigo ver, mas espera por mim, estou a chegar.

    Não te escrevo faz tempo. Talvez porque já não te sei escrever. Talvez porque já não te sei sentir. Ou porque estamos longe. Talvez seja apenas isso. A distância que faz sobrevoar, entre o vento leve e as folhas de outono, o sentir. Não te escrevo faz tempo, mas quero escrever-te todos os dias. Porque não quero esquecer-me do que é escrever sobre ti, sobre amor. Mas há um caminho gélido sem ti, que me levou as palavras e que me tem distanciado deste lugar. Quero caminhar sem ter medo de te encontrar. Ou de não nos voltarmos a cruzar. Quero caminhar sem olhar pelo ombro, ou distanciar as pessoas.…

  • Quando deixou de ser suportável para mim

    Eu posso ser amor, posso ser sentimentos. Posso ser poesia em cartas escondidas. Posso ser um bom dia de olhos rendidos. Posso ser desejo. Bocejo. . . Também posso ser algo menos sério. Posso ser cuidado e precaução. Posso ser companhia. Posso ser quem espera, quem ouve e não desanima. Posso ser o estado emocional certo capaz de se colocar no incerto até que se torne certo. Posso não me sentir completa e aceitar partilhar meio barco, contigo.     Posso ser tudo. Posso ir sendo qualquer coisa. . . Mas também posso não ser. Posso não deixar que apenas te lembres de me trazer de volta quando o frio…

  • Se isso não é a finalidade maior de se ser íntimo de alguém, então não o quero ser.

    O que mais me inquieta é que jurámos trazer sempre a verdade um ao outro e não fomos capazes de acreditar na verdade que o outro trouxe. Nunca nos deitámos sobre a certeza de que o que nos havia chegado era sincero. Nunca nos permitimos sossegar o pensamento. Nunca procurámos esse lugar mudo que não precisa de palavras para nos fazer confiar que a verdade que segurarmos de mãos dadas, é de facto, real. Sincera. Ou confiável. Encontrámo-nos muitas vezes na intimidade. Partilhámos prazer. E despedimo-nos, julgava eu, na verdade de que ambos éramos para lá de íntimos. E a intimidade é tão própria, tão bonita que não lhe quero…

  • Dois corpos despidos mas tão contidos ao mesmo tempo

    Sei-me insegura. Não de mim. Mas do que nos espera. Ou do que me espera. Caminhamos no desconhecido e, pela primeira vez, caminho separada de ti. Encontramo-nos nos entretantos. Sorrimos. Há um sossego demasiado doce em ti. Trocamos vontades, beijamos desejos. E voltamos a seguir caminho. Sem que levemos connosco o que trocámos. Sem que guardemos connosco o que beijámos. Num pisar de chão irregular, que não nos permite sentir, que não nos permite amar, mas que nos faz querer voltar. Caminhamos neste limiar. Que resulta nas nossas dúvidas, que se resolve nas nossas constatações. Mas que nos faz querer voltar. E não há grandes explicações. Sorrimos. Juntos, somos esta…

  • Não Assim

    Perdeste-me no dia em que escolheste não me ter. Ou não olhar para trás. Perdeste-me exactamente no momento em que escolheste o amanhã em detrimento de um agora, maior. Maior porque dois é maior que um. Ou um e meio, pelo menos. Chegaste-me sem me entregares o teu passado. E saíste deixando apenas isso. A certeza de que ainda és corpo e meio … de alguém. Metade de ti é muito dela. E metade dela é muito tua. Mesmo que juntos não sejam, já, maiores que um. Mesmo que tenhas escolhido ser corpo e meio, sozinho. E que caminhes para de onde voltas apenas tu. Num lugar onde deixas meia…

  • Com tudo por viver. 

    Desistir de ti é ter a certeza de que a minha ausência não te custa. É olhar para ti e ver o mesmo que ontem. Um deambular sem nada para contar. É isto que anuncias. É isto que denuncias. Um não retorno sem conclusões. Uma não resposta às minhas inquietações. E é isto que acontece quando nada continua. Porque nada fizemos por continuar. Desistir de ti é voltar a ver. É um ligeiro levantar da cabeça seguido de um primeiro passo, despovoado. Um des-sentir. De uma subtileza contínua. Desistir de ti é abandonar-te sem que dês por isso. Um escorregar dos lençóis, sob a cor do luar na janela, que…