• Quando deixamos de viver

    Não pensei voltar a sentir um amor impossível. Destes que nos cortam a respiração duas vezes. Uma, quando nos chegam. Duas, quando não os podemos sentir. Mas sentimos. Numa troca de olhares, num cruzar de cheiros, num tocar dos dedos. E arrasa-nos. Despenteia-nos. Consome-nos, por completo. Por dentro. Por fora. Porque sentimos e não podemos sentir. Não pensei voltar a sentir um amor impossível. Olhar para ti e não saber gerir o que me vai cá dentro. Conter o que me vai no peito. Sem parecer perdida. Descontrolada. Por sentir e não poder sentir. É este o aspecto que temos quando amamos e não podemos amar. Como se um raio…

  • Voltei a respirar

    De saber que o acaso nos trouxe, sem que lhe mostrássemos tenções de nos conhecer. Ofereceu-nos noites de lua cheia e pediu que nos apresentássemos. Sem impedimentos. Ou mesmo com todos eles. Sentámo-nos. Sorri. Senti-me atravessada no segundo em que cruzámos os rostos. Voltei a sorrir e alguém te chamou. Perdi o desembaraço. A timidez subia-me pelo corpo acima e evitei olhar-te uma segunda vez. Ou todas as vezes, na verdade. Não sabia se queria reconhecer o que se estava a fazer sentir em mim. Talvez não estivesse preparada para receber tudo isto. Ou melhor. Deixar crescer tudo isto. — Guardei-te em mim. Nesse lugar tão fundo que não nos…

  • As palavras que, por vontade, não te direi

    Se não o sentiste espera que te chegue. O tempo. O tempo em que num olhar mais firme, sabes que te aconteceu. E onde nada existia, já tudo se sentia. Como se nos atravessasse de rompante e nessa hora, já era amor. Todos esses instantes se enchem de histórias. Trocam-se palavras. Trocam-se memórias. E há uma história em tudo isto que ele me deixou. Outra no pouco que levou. E tantas em tudo o que nunca me trouxe. Nesse dia, corria por mim um misto de emoções. Senti tudo o que nunca, antes, havia sentido em mim. Fez-se maior que eu. Fez-se maior que o mundo. Amá-lo assim, era amar para lá de…

  • Hoje sonhei contigo.

    Hoje sonhei contigo. E pela primeira vez, em meses, sonhei que estávamos juntos. Sem medo de voltar a falhar. Sem pressa de nos consumar. Como se tudo o que tivemos de errado se tivesse soltado de nós. Voltámos àquele primeiro dia, onde tudo se fazia sem ideia de um fim. Tu não resistias ao meu sorriso. Eu não resistia ao cheiro que trazias contigo. Nessa doce noite, encontrei-te sob um manto de água, enquanto esperavas por mim. Seguravas um guarda-chuva com medo que o tempo fosse motivo para não me teres só para ti. Conversámos até vermos o dia seguinte nascer. E num silêncio receoso, sorrimos. Estávamos a trocar corações há…

  • Há qualquer coisa dentro de mim desde esse primeiro dia em que te vi

    Não sei escrever sobre ti. Não sei escrever sobre nós. Na verdade não sei por onde começar, nem como continuar. Nunca conheci alguém que me desse tanta luta. Capaz de me fazer engolir o medo e seguir. Sobre a incerteza de certeza nenhuma. Sobre um desconhecido incitador. Vejo-te vestido de silêncios de história. Onde a cada estremecer das nossas respirações se ouve um mar de inquietações. E de seguida, um sorriso. Como se nada disso importasse naquele preciso momento. E num silêncio dizíamos tanto. Assusta-me esta energia que me fazes sentir desde esse primeiro dia em que te vi. Faz-me querer ter-te por perto. Faz-me querer estar por perto. E…

  • Simples

    Segurei-me a tudo o que deixaste de errado e resolvi-te dentro de mim. Como que para deixar de sentir precisasse de deixar de gostar. Simples. Semeaste uma infinidade de emoções, desmedidas, que me ocuparam os cantos, desprovidos de sentidos, e juraste não mais partir. Simples. Fomentámos um sentimento maior. Acreditámos na combinação, pura, entre dois corpos nus. Completamente despidos de outras afeições. Fomos a inteira parte um do outro. Sem outras interpretações. Sem essas interrogações. Simples. Dois corações trocados. Duas almas rendidas. Sei que nada se perdeu nesse rasgar de compromissos. Sei que nada se esqueceu nessa corrida pelo tempo. Nessa vontade de suprimir todo o amor que se viveu.…

  • Essa brisa que há em ti

    Não me sei capaz de saber o que sinto. Ou melhor, o que te sinto. O corpo caminha e eu deixo-me para trás. Ou não. O corpo caminha e eu caminho com ele. Vamos ao teu encontro. És exactamente aquilo que jurei não mais existir. Ou não. És exactamente aquilo que não esperava descobrir. É tudo tão igual e tão diferente em ti. Em nós. Todo este começar. Ou não. Trazes contigo uma leve brisa doce, que me inquieta o sorriso e me devolve o chão. Deixava que os dias corressem assim. Num reboliço de emoções. Ou não. Ou sim!  

  • Não guardo nem um segundo dessa felicidade dissimulada

    Os dias não esperam que me recomponha. Forçaram-me a continuar. Não temos tempo para nos reter no passado. Não temos tempo para viver no que deixou de existir. E chega uma hora em que as memórias se confundem entre emoções distantes e na verdade o que fica, torna-se impreciso. Não sei distinguir. Um ano de memórias que não se deteve dentro de mim. Fica, o que ainda resta do pouco do que não se confundiu. Entre pretextos e equívocos, entre ilusões e constatações. Fica. Pouco. Muito pouco. E num acordar, nesse acordar, já não dói assim tanto. Já não dói, nem metade. Fica, essa linha ténue da felicidade que senti nesse…

  • Conheci-te. Agora sim.

    Conheço-me como quem mede todos os riscos ao milímetro. Nunca me deixo seguir por caminhos incertos. Estou certa, de que tudo seria mais simples se um dia ao desconhecido me deixasse entregar. Conheci-te. E nessa insegurança de nada saber, consenti que o tempo decidisse por mim. Deixei-te chegar. Num jeito teu que me convidou a sentar. Foste tudo o que desenhaste ser. Muito do que desejei sentir. E todas as partes que juntámos a dois se cimentaram numa verdade que geraste sobre o vento. Todos sabemos que o vento não fica. Olho para mim, nesse exacto dia, onde percebo que tudo o que eras, apenas dizias ser e entendo o…

  • Dorme comigo só mais todos os dias das nossas vidas.

    O dia silenciou-se. Fechámos as janelas e deixou de se ouvir. Tiraste as tuas roupas. Tirei as minhas roupas. E ficámos ali. No aconchego dos nossos corpos nus. Bocejaste, nesse teu doce jeito de ser. Adormeci, no aconchego do teu abraço. E a noite caiu na sua pressa de acordar. O problema das noites a dois é que o tempo de olhos fechados passa a correr. Amo-te tanto meu amor. E eu a ti, minha amora. Aquece-me esse amor que respiras por mim pela noite fora. Solto-te as palavras que me fazem amar-te nu. E de repente, “tanto” deixa de ser suficiente para cobrir tudo o que te sinto. Já te disse…