Sem Nome
Não sei por onde começar. Sempre escrevi sem saber se algum dia me havias de ler. Hoje sei que me lês. Que me sabes de cor. É mais assustador escrever-te agora.
Ligaste-me. Não falávamos há, pelo menos, quatro anos.
—
Disse-te muita coisa, mas não tivemos tempo para tudo.
Faltou-nos isto.
—
No dia em que a pediste em casamento eu guardei a nossa história. Andava comigo no peito não fosses tu largar tudo e voltar. Nesse dia, percebi que não.
—
Nunca consegui esquecer-me de ti. Catorze anos depois. Consegui deixar de te amar sem medida. Mas não te consegui esquecer.
Não te esqueço porque tenho-te um carinho imenso. És família. E vou amar-te sempre nessa medida. Mas já não ‘sem medida’.
—
Estamos na vida um do outro há demasiados anos. Não sei precisar, mas certamente há mais de vinte. Não se esquece uma pessoa que está na nossa vida há mais de vinte anos.
Recordo a nossa infância. Os lugares que conhecemos juntos. A amizade que fomos construindo.
Também recordo que para ti a vida não foi fácil. Que precisaste da minha mão bem firme. Porque te viste sozinho no mundo.
Nunca a larguei. Hoje ainda a estou a segurar. Sou o teu porto seguro. Eu sei. Disseste-me muitas vezes, mesmo depois do fim. Aceito isso.
—
Ligaste-me. Não falávamos há, pelo menos, quatro anos.
Costumavas ligar de seis em seis meses. Estavas em silêncio há tanto tempo que já não esperava voltar a ouvir a tua voz.
Pediste desculpa. Vezes e vezes sem conta. Disseste que me lês com regularidade. Que me sabes de cor.
Não sabia.
Partilhaste comigo uma dor que eu não imaginava que seguravas. Que te impede de respirar. Que não te permite sossegar.
Disseste que me amas. E eu disse que também te amei muito. Sublinhaste que para ti não é passado, é presente. Quando o dizes no presente, queres que eu saiba que não se foi. E eu repeti que “também te amei muito”.
Não me podes pedir que ainda te ame sem medida…
Tenho-te um carinho imenso. És família. E vou amar-te sempre nessa medida. Mas já não ‘sem medida’.
Fizeste silêncio. Acho que pensas que me perdeste. E em parte, sim.
Mas eu também perdi. Fizeste-me sentir que não te chegava. (Disseste-me agora que foste tu quem se sentiu sempre insuficiente.) Parte de mim perdeu a esperança. No amor. Nas metades que se completam. Nos filhos que são fruto de uma união bonita. Não sei se algum dia vou encontrar tudo isso. Não sei se algum dia vou estar disponível para tudo isso. Não sei se algum dia alguém me vai fazer reacender tudo isso.
No amor não há lugar a essa dúvida. Não pode. Somos sempre suficientes no amor. Acho. Achava. Anseio voltar a achar.
Perdemos os dois.
Mas não me perdeste totalmente. Eu estou aqui. E podes ligar. Podes chorar. Podes falar. Eu estou aqui. E estarei sempre aqui.
Não te condenes. Podes ligar.
—
Não podes é pedir-me que te ame sem medida.
Porque isso implicava escolher ter a cama sempre vazia. O corpo sempre frio. As mãos sempre desamparadas. O olhar sempre vazio.
Eu não te posso amar sem medida porque isso implicava amar sem te poder ter.
Porque nunca terias coragem para me escolher.
Já não te amo sem medida porque, um dia… escolhi-me a mim.
—
Tu ainda nos achas a metade um do outro. Eu…não.
Nós não somos a metade um do outro. Porque se fôssemos tu não tinhas ido embora.
Nós não somos a metade um do outro. Porque se fôssemos tu não terias casado com outra mulher.
Nós não somos a metade um do outro. Porque se fôssemos tu não concebias uma filha sem mim.
—
Tu foste o amor da minha vida. Não tenho qualquer dúvida sobre isso.
Mas eu preciso de encontrar o amor do resto da minha vida.
Alguém que me escolhe, segura e não me permite duvidar do caminho.
Com coragem para ficar por muito assustador que seja fazer essa escolha.
Alguém capaz de te acolher em mim. Porque serei sempre em parte tua. Mas não o suficiente para te querer receber de volta. O passado fará sempre parte de nós. Não se apaga. Não se renega. Não se substitui. Inevitavelmente, faz parte de nós.
—
Disse-te que te perdoei já há muito. E é verdade. Não te guardo rancor e recordo-te com felicidade.
—
Amo-te. Sim. Na medida do que eu te consigo ou quero amar.
És família. E vou amar-te sempre nessa medida.
Mas nunca em mais nenhuma. Mesmo que largues tudo.
Perdeste o meu amor incondicional há muito. Talvez no dia em que escolheste não me ter.
—
Eu ainda não tive oportunidade de escolha.
Porque é preciso muita cautela na hora de entregarmos o nosso coração.
E o meu… só o entregarei nas mãos de quem me quiser amar sem medida. “Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza. Todos os dias da nossa vida”.
… Deixa Ser …
